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"Há muito tempo que ela não sorria tão espontaneamente. Há muito tempo que ela não sentia tamanha vontade de viver, de ser feliz, de fazer as coisas boas da vida. Não, ela não está apaixonada… ela simplesmente se desapegou das coisas que não lhe faziam bem."

Carinhos Guardados ♥

23 janeiro 2012

Voar pode ser Mortal



A leitora que assina seus recados à coluna como "Uma mineira" comentou outro dia a contradição vivida por certas mulheres brasileiras do nosso tempo, que ocupam funções importantes nas empresas e instituições públicas e se comportam, em casa, como se comportavam as tias e as avós.
Longe da família, essa mulher moderna lidera equipes, toma decisões difíceis, contorna problemas delicados, sabe dar ordens e faz as coisas acontecerem. 
Mas, quando volta para casa, encarna o mais antigo e tradicional de todos os papeis: a gestão das compras no supermercado e a direção da cozinha, da limpeza, do estudo dos filhos e das roupas do marido. 
Essa mulher trepidante no mundo exterior é obrigada a esquecer tudo que sabe e deixar falar apenas os sentimentos, ao cuidar dos pequenos dramas familiares, que podem ir de uma crise de choro da filha mais velha, que rompeu o namoro, a um ataque de nervos do garoto, passando pela cara emburrada do marido, eternamente insatisfeito com ele próprio e com o mundo em volta.
As feministas militantes - adotando racionalidade tipicamente masculina - sempre condenaram essa "dupla jornada" com base apenas no volume de trabalho que a mulher realiza a cada dia, sem remuneração em dobro.
Com a permissão das feministas, convém ir mais fundo. E tudo faz crer que a questão mais grave e central é outra. Dinheiro tem o seu papel, assim como tudo aquilo que ele é compra. Mas a realização pessoal, o amor e o sentimento de que a vida faz sentido são insubstituíveis.
Bem mais preocupante que a soma de reais que a mulher recebe por trabalhar 14 horas/dia e sem repouso semanal remunerado é o roubo do seu o tempo e da sua energia para cuidar de si mesma, ser bonita, pensar, estudar, perceber por onde anda o seu eu e, de vez em quando, até namorar o companheiro.
A nossa "Mineira" não revela se é casada, mas parece conhecer muito bem a trajetória dessas mulheres que chegam a renunciar à sua identidade, sensibilidade e criatividade, com a ilusão de que assim irão preservar o casamento e a unidade da família. 
Aqui pra nós, é ginástica para campeãs olímpicas e exigência demais para uma única pessoa.
- São os paradoxos que a vida nos apresenta - diz a leitora. - Força e fragilidade, desejo e dever, sonho e realidade. 
Segundo ela, não se trata apenas de uma dupla jornada, mas de uma relação ambígua com os diversos aspectos da vida. Relação que congela, envolve e anestesia tantas e mulheres e meninas. 
Muitas resistem e se revoltam contra esse modelo pós-moderno de sujeição e renúncia, atenuado e disfarçado pelo papel que desempenham fora de casa. Elas sabem que haverá um preço por sua rebelião e se dispõem a pagá-lo.
Essas abraçam a tentação de voar, abrir novos caminhos, viajar por mares nunca dantes navegados e recuperar a confiança em si mesmas e na sua capacidade de crescer, criar e amar.
Mas a maioria, cedendo às pressões da sociedade e da família, aceita esse duplo papel. Essas vão sufocando, lentamente e sem perceber, o que existe nelas de melhor. O que existe nelas de mulher.
E algumas, ouvindo os moralistas em eterno plantão, até ajudam a instalar as grades na gaiola dourada que as impede de voar. Terão uma vida sem sonhos, para sempre. Uma vida sem vida.
- Voar pode ser mortal - elas dizem.
E, em seguida, morrem.





Tião Martins

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